quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Do livro II: 'Todos os homens são uma noite'


XXII

Ahab parecia pertencer-me.
a solitária Baleia Branca,
Moby Dick, suplanta qualquer
outro aspecto da vida
o baleeiro quer por timidez
grandeza a bordo,
a História Natural afirma que
a experiência, a crença, a «sede de sangue»
continua a viver na
memória de muitos pescadores. o poder quando
submerso continuava a ser
um enigma. É coisa bem conhecida para os
americanos e ingleses, há anos para o homem
a Baleia Branca imortal matéria sólida
desfazendo as baleeiras. Moby Dick cortou
a perna de Ahab
a metade tornava-se granada
do seu coração, dor, segredo.
A loucura humana é profunda:
todas as verdades são
abissais. Os deuses com os seus
uivos pensavam
apenas em vingança implacável,
sobrenatural. encontrar a baleia
a mais mortífera das pragas 

Dias de Tempestade, Edição de Autor, 2012

L.A. - Robert Frank (1956)


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Variação - António Carlos Cortez

Regressas sempre aos versos
A arte torpe das palavras
A fala o fingimento de verdade
A arte a canção dos mais pobres
de todos os sobreviventes
Calas quanto sabes mas escreves
Por metáforas e símbolos
as ruínas do corpo e do palato
essa hostil lâmpada
sabes que corremos como cortina
escura o sentido literal da palavra
Arda no siêncio com que
nos afastamos ou morremos
a palavra da esperança
No longo silêncio que se arrasta
nenhuma flor nos basta


Depois de Dezembro, Licorne, 2010

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Contrato Matrimonial - José Duarte


contrato matrimonial

1.

isto é o que nos resta:
o som que fica do vazio
da água a escorrer na
máquina de lavar
a roupa seca sobre a cama
ainda com o cheiro do amaciador
à qual nos agarramos, dobrando-a
respirando segredos
o que nos resta é o
olhar vago sobre o lume e as
cinzas que nos toldam o pensamento

2.

deram-nos sensações, prestações, ilusões
e, acima de tudo, juros de amor
ficaram as cidades vazias
ocas de sentido, casas abandonadas
o que resta são os passos arrastados,
os sons desafinados
de um ou outro portão que se abana
ainda com o vento

3.

cumprimos o contrato social e
o contrato matrimonial, casámo-nos e
agora queremos
o divórcio porque
o corpo não aguenta
levando consigo
todos os seus pertences
a fim de os vender

4.

isto é o que nos resta:
falar uma língua estrangeira
com cuspo na boca, aspirar
fundo o pó das acções
compreender mercados e novas
funções, a de exilado, a de
expatriado, a de conspurcado
a de quem cometeu pecados e
não sabe

5.

ainda há dias o relógio
parou e deixei de compreender
o tempo
e a sensação de alguma
felicidade que nos venderam, 
chave na mão e de sorriso aberto, 
o que nos resta, o que fica
connosco para sempre é o
silêncio

6.

esse é o único verdadeiro
momento privado
em que percebemos
que o regresso será
impossível,
que os dias terão agora um
outro sentido
que o fim, quando chegar, 
será não com um estampido,
mas sim com um suspiro.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Of Mutability - Jo Shapcott


Too many of the best cells in my body
are itching, feeling jagged, turning raw
in this spring chill. It’s two thousand and four
and I don’t know a soul who doesn’t feel small
among the numbers. Razor small.

Look down these days to see your feet
mistrust the pavement and your blood tests
turn the doctor’s expression grave.
Look up to catch eclipses, gold leaf, comets,
angels, chandeliers, out of the corner of your eye,
join them if you like, learn astrophysics, or
learn folksong, human sacrifice, mortality,
flying, fishing, sex without touching much.
Don’t trouble, though, to head anywhere but the sky.

Of Mutability, faber & faber, 2011.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Maybe - Richard Blanco



Maybe


for Craig

Maybe it was the billboards promising
paradise, maybe those fifty-nine miles
with your hand in mine, maybe my sexy
roadster, the top down, maybe the wind
fingering your hair, sun on your thighs
and bare chest, maybe it was just the ride
over the sea split in two by the highway
to Key Largo, or the idea of Key Largo.
Maybe I was finally in the right place
at the right time with the right person.
Maybe there'd finally be a house, a dog
named Chu, a lawn to mow, neighbors,
dinner parties, and you forever obsessed
with crossword puzzles and Carl Young,
reading in the dark by the moonlight,
at my bedside every night. Maybe. Maybe
it was the clouds paused at the horizon,
the blinding fields of golden sawgrass,
the mangrove islands tangled, inseparable
as we might be. Maybe I should've said
something, promised you something,
asked you to stay a while, maybe.
in Looking for the Gulf Motel, Pittsburgh University Press, 2012
Este é o poeta que irá ler um dos seus poemas na tomada de posse de Barack Obama. Mais informação aqui.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

3 - Manuel Gusmão

ao cimo do jardim no topo
de todas as hastes do jardim é
como se explodisse uma praia.
ou como se rodando sobre si mesmo
e subindo, em cima, o jardim
expirasse uma praia que se abre.
e então na mínima ondulação
dessa praia, no alto da explosão,
é um jardim terrestre que vai
começar
a aparecer. que recomeça.



in Dois sóis, a rosa. A arquitectura do mundo. Caminho, 1990

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Vitor Nogueira - Pombo


Digam o que disserem, o grande vadio das cidades
é o pombo. Mistura-se com o fumo dos automóveis,
a luz dos cafés. Empoleira-se num busto
de homem célebre, o mesmo atrevimento
com que se mete num enfeite banal de cantaria.
Um dia bate as asas, lá se vai. Qual é o seu destino?
Sabe-se acaso o destino de uma asa que esvoaça?
in Modo Fácil de Copiar uma Cidade, &Etc, 2011

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Bucólico en plural por momentos mayestático

No nos está permitido perder el tiempo. Vamos de un lado a otro y aun de 
la inactividad procuramos extraer provecho y conclusiones. Cuando no 
producimos nada concreto nos engañamos con el placebo de la 
“experiencia”, que se produce a sí misma: máquina hermosa y 
autosuficiente que habría deleitado a Leonardo. Cuando temblamos por la 
resaca y vomitamos en la regadera y pasamos la mañana espantando el 
fantasma de la derrota con abluciones y café y lecturas clásicas decimos 
que la experiencia es un pájaro negro encerrado en el cuarto. Y 
entendemos que está bien que así sea, porque es jueves, y es verano, y 
todos los errores que hemos cometido para llegar hasta aquí son finalmente 
nuestros –hijos rosados en la primera infancia que juegan futbol en los 
callejones, en  las plazoletas vacías de la cabeza–. Cuando nos sentamos 
como exánimes en el filo del ocio y nos sentimos nimbados por el miedo a la 
muerte como un Cristo Pantocrátor en anfetaminas decimos que el envés 
plateado de las hojas en el parque de enfrente es un saludo modesto que 
nos dirigen las cosas invisibles, y lo aceptamos porque es jueves, y es 
verano, y hace tiempo que no nos permitíamos rompimientos de gloria 
completamente disociados de las producciones culturales al uso. Y a veces 
está bien que lo hagamos. Que perdamos el tiempo, quiero decir; que 
abracemos el pánico como a un padre marchito. Porque es jueves, y es 
verano, y las horas se acaban más pronto que tarde. ~

Daniel Saldaña París. Mais informação, aqui.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Lisboa


Imagem de Lisboa, Cidade Triste e Alegre de Victor Palla e Costa Martins, inicialmente publicado em fascículos em 1959 e reeditado em 2004, completo. É um livro fabuloso, com imagens excelentes de Lisboa.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Um poema de José Duarte


VI

Atentos ao pregador como um relâmpago
todas as vozes se juntaram para cantar os
uivos da tormenta. Capítulo primeiro:
bem profundos são os abismos da alma
do próprio ventre da baleia.
Sondamos o fundo das águas,
pecadores do
coração empedernido.
Não interessa. É nesta
desobediência que toda
a extensão do mundo
ensaia Sodoma,
enquanto Jonas não reconhecer
um homem honesto com a próxima maré.
O ar circula mal devido
ao peso da alma, cujo sangue
se esvai incessantemente.
O mar revoltou-se por cima
da cabeça de Jonas com
a boca escancarada para engoli-lo.
A lua pálida ilumina tudo em vão.
A baleia cerra os dentes
de marfim.
Apaziguou-se.
Erecto e de olhos fechados ficou
para ouvir dos mais violentos turbilhões.
Ordenou à baleia, com
as orelhas ainda cheias do rumor do oceano,
a verdade, felicidade segura, profunda
e cobriu o rosto com as mãos.

in Dias de Tempestade, 2012, edição de autor. 

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Um poema de Diogo Vaz Pinto


«O esperar de certos seres
      e de certas horas
que a sua juventude lhe seja devolvida»
  Julien Gracq, A costa das Sistes 

"Tive o tempo que quis e mais algum
para me tornar sério. Não fui por aí.
A família tinha a sua conta, e eu
sempre me fodi com números. Nunca
me deu para fechar linhas, ser firme,
ou manter a formação. Gosto de variar
a continência. Olhei muito em volta,
tudo piscava um olho. Não sei
governar-me, não sei com quantos
paus (...) nem sei fazer-me à vida,
antes faço que não é comigo. Mas sei
o que é amanhecer. Tenho colecções 
sem importância nenhuma, frágeis,
simples. O tinir da primeira luz
nos galhos, logo a gritaria dos pássaros
cavando a alvorada em roucas rajadas.
Uma aragem presa absorvendo
o aroma sumarento e entontecedor
de uns frutos caídos. A moleza e essa
sombra que me caiu às costas escorregando
de outro mundo"

in Bastardo, Averno, 2012