sexta-feira, 19 de maio de 2017

Dentro do Meu Peito Você Pode Cultivar a Solidão o Ano Inteiro - Diego Moraes

Lembro que uma senhora trabalhava na minha casa e orava muito. Ela cozinhava orando e às vezes varria a casa lagrimando. Dona Lígia. Nunca esqueço o rosto da dona Lígia. Um rosto de compadecimento com o sofrimento alheio. Uma expressão cansada de esperança num mundo melhor. Eu liguei a televisão. e vi o avião acertando a primeira torre e depois outro detonando a segunda. Ela se ajoelhou de cara pra parede e começou a chorar. Começou a pronunciar palavras em línguas estranhas. Fiquei calado. Acho que a fé da dona Lígia me deixava sem palavras. Sem ter o que dizer. Todos os canais de noticias temiam uma terceira guerra mundial e resolvi me trancar e orar também. Não me ajoelhei. Sentei a bunda na beira da cama e comecei a visualizar com força um mundo melhor. O tempo passou. […]

Diego Moraes. Dentro do Meu Peito Você Pode Cultivar a Solidão o Ano Inteiro. Lisboa: Douda Correria, 2017. 

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Flores - Daniel Jonas



I

Tudo isto me parece terrível.
Todas estas flores de que não sei o nome
parecendo trepar pelo ar, suspensas no equilíbrio de Satã,
deformadas, varicosas, impudentes,
cacarejando na noite.
Eu, acoitado, encarando-as à meia-noite,
figuras espectrais, abortivas,
viciosas a cada centímetro do seu talo.
A flora demencial que neste pátio assoma
interpela-me, alguma coisa tem comigo.
Só a tosse, súbita, de dentro me encoraja
atravessando a janela do quarto.
São estilhaços da voz amada,
meu emblema contra a raiva fria
de todos os dias e deste ainda,
um escudo santo
contra as invectivas de Lúcifer.

Que todos me desamparassem
não o choram estas estranhas, antes
rubricam tortuosas como epicentros
do galo.
Não poderei ir atrás do tempo
por entre os meus dedos escoado:
cada dedo pelo menos um remorso maior
no meu ábaco de angústia.

O que estas flores e estas folhas me dizem
é ainda outra coisa. Nas suas saias de varas
um modo de se estar preso
na contrição inapelável do fait accompli.
São ainda exosqueletos, a artrite ágil
disseminada, dessedentada.

Lá mais ao longe espanta-espíritos
pascem: o rebanho de Satã,
uma nuvem de dúcteis trevas,
fantasmas combalidos
de cordeiros
arrancados ao Pai.
Agora estes são cajados:
forma torpe de sede.

II

Esperastes-me, flores.
Insaciáveis mas pacientes
como alguém sabendo-se intocado
pelo falso avanço do tempo,
indómitas nos vossos nervos secos
dispersando-se apenas ilusoriamente
para tentaculares permanecerdes irrepreensíveis
na ilusão imóvel da vossa depredação.
Mostrais-vos superadoras
do mais ínfimo estado
com os vossos nódulos frios
e a vossa água paralisada.

À distância
o cerro invário,
o badalo da devastação da música,
todas estas não caducas sombras.
Esta espera não me servirá.
Os meus dias diante de mim inúteis.
A minha bela criança dorme
a meu desfavor.

Daniel Jonas. Bisonte. Lisboa: Assírio & Alvim, 2016.